Esta é a história de um Inglês que mudou a vida da Marinha
Grande há 250 anos atrás.
Esta é a história de Guilherme Stephens em que envolve Rio
Maior numa lição empresarial.
Guilherme nasceu a 1731 em Inglaterra e após a morte prematura
dos pais veio trabalhar para Portugal com apenas 15 anos. Com o terramoto de
1755 fica desempregado e passa a viver em abrigos. Sabendo que para a reconstrução
de Lisboa vão ser necessárias matérias primas, propõem ao rei D. José e ao
Marquês de Pombal a criação de uma fábrica de cal que começa a laboral em 1757.
Após 1764 e com a necessidade de vidros e janelas, o Marquês de Pombal convida
Guilherme Stephens a reconstruir a fábrica de vidro perto do Pinhal do Rei, na
atual Marinha Grande. A 16 de Outubro de 1769 a Real Fábrica de Vidros começa a
laboral.
Conta-se uma interessante história, envolvendo Rio Maior, em
que a perspicácia empresarial de Guilherme Stephens fica bem evidente. Esta história
encontra-se descrita em “Memórias Histórica de Algumas Vilas e Povoações de
Portugal” de 1871.
Guilherme Stephens saiu de Lisboa em direção á Marinha
Grande, como era seu costume, para acompanhar pessoalmente a produção na
fábrica, apesar de ter inteira confiança no administrador.
Chegando a Rio Maior, descansou numa estalagem, de
construção recente, aí existente.
A estalajadeira trouxe-lhe um copo grande com vinho. O copo
nada tinha de notável a não ser a forma colossal e a grossura do vidro.
Stephens, depois de observar o copo, chamou a estalajadeira.
- Onde comprou este copo, boa mulher?
- Veio da Marinha Grande e não me custou muito dinheiro, meu
senhor. É de tão boa qualidade que já tem caído no chão algumas vezes e ainda
se não quebrou.
- Deveras?
- É tão certo que se não tivesse agora medo que não me
saísse o dito verdadeiro, pediria ao senhor que o deitasse ao chão.
- Se o quebrar, hei de pagar-lho.
Gulherme Stephens atirou o copo ao solo e a mulher teve o
prazer de ver que ficou inteiro.
- É de boa qualidade, não há dúvida, resmungou Stephens, e
acrescentou alto:
- Compro este copo…
- O senhor…
- Sim… quanto quer por ele?
- Já tem uso e faz-me falta.
- Não importante… Guarde isso.
E Guilherme deu uma moeda de ouro á estalajadeira, que ficou
eufórica pois há muito não via nas suas mãos tão avultada quantia.
- Visto que já o copo é meu, dê-me agora um martelo, boa
mulher.
Stephens com duas marteladas fez o copo em mil pedaços o que
deixou a mulher atónita.
- Não se admire. Você há de vir um dia a saber para que isto
se fez.
Guilherme Stephens dirigiu-se á Marinha Grande e logo que
chegou ali mandou chamar o administrador.
- Disseram-me, e eu vi, que se fazem aqui copos de vidro
grosso para tabernas e estalagens.
- É verdade, e por sinal que tem extraordinário consumo, pois
os almocreves estão aí a gabar a sua duração… afirmam eles que se não quebram.
- Fique sabendo, sr. administrador, que isso é contrário aos
interesses da fábrica.
- Pois eu julgo que tão grande fama deve acreditar a
fábrica.
- Assim deve ser. Mas de hoje por diante não se hão de fazer
copos, nem vidros, que se não quebrem.
Efetivamente, desde essa altura que não se fabricam na
Marinha Grande copos como o que Stephens sacrificou em Rio Maior”.
Este conceito de produção de “Um artigo que não se estraga é
uma tragédia para os negócios” está hoje em dia ligado à chamada obsolescência
programada em que os produtos são feitos para durar menos tempo e assim
aumentar o volume de negócios.