No “Portugal Antigo e Moderno” de 1873 existe uma história
curiosa sobre a Gruta de Alcobertas.
Esta gruta, é identificada no texto como existente
no chamado “Cabeço de Truquel” e a Serra dos Candeeiros é ainda referida como
Serra dos Albardos devido ao frio que se costuma sentir no cimo da serra.
O curioso da história é os locais terem posto fogo
na gruta para evitar os trabalhos arqueológicos de 1869. Mas a história começa
assim:
“…
Em 1869, o
Sr. Joaquim Possidónio Narciso da Silva, distinto arquiteto da casa real,
fundador da Associação dos Arquitetos Civis Portugueses, e do Museu
Arqueológico que está na igreja gótica do Carmo, em Lisboa. Inteligente e
zeloso amador das antiguidades da pátria, fez aqui uma viagem, de propósito
para investigar todas as particularidades da gruta e se a sua existência
pertencia a épocas pré-históricas, como parece provável.
Viu que a
entrada da gruta está meio escondida pela rama de espessos arbustos e é baixa e
estreita. A primeira gruta é uma espécie de vestíbulo, bastante alta, mas pouco
espaçosa. Porém, por uma abertura existente no rochedo, passa-se a outra gruta
muito mais vasta. Ambas as grutas têm nas rochas que formam a abobada uns buracos
por onde entra o ar e a luz.
Achou o Sr.
Silva a pouca profundidade uma camada de cinza (com alguns ossos misturados)
com bastante espessura e ocupando todo o centro da gruta. Por baixo desta
camada de cinza achou uma de areia e por baixo desta outra de cinza e ossos,
como a superior.
Em vista
disto, é de supor que esta gruta fosse destinada para necrópoles, ou jazigo dos
restos mortais desses povos primitivos.
Já era muito,
mas o Sr. Silva tinha fundadas esperanças de vir a descobrir instrumentos e
outros vestígios dos tempos pré-históricos.
Como era
noite, interromperam-se os trabalhos. No dia seguinte, quando o Sr. Silva
chegou à gruta com os criados e trabalhadores para continuar as investigações,
viu que dos respiradouros da gruta saiam densas espirais de fumo. Foram os
pastores da serra que julgando que lhes iam roubar tesouros que reputavam seus
(apesar de na véspera o Sr. Silva lhes dizer que caso aparecesse algum ouro ou
prata lhes dava tudo a eles) tinham enchido a gruta de mato (para o que tinham
trabalhado toda a noite) e lhe haviam lançado fogo.
No dia
seguinte voltou o Sr. Silva, mas o fumo e o calor não deixaram penetrar na
gruta, pelo que reservou a continuação dos trabalhos para o dia seguinte. Mas
recebendo um telegrama para regressar a Lisboa ficaram, por enquanto, suspensas
as suas investigações.
Por essa
ocasião, mostraram também ao Sr. Silva na mesma serra, à distância de coisa de
um quilometro da gruta, um dólmen perfeitamente conservado. Foi um ótimo achado
porque não havia conhecimento, nem memória escrita, desse monumento céltico
naquela localidade.”
Mas quem foi Joaquim Possidónio Narciso da Silva?Possidónio da Silva nasceu em Lisboa a 15 de maio
de 1806.
Por causa da invasão napoleônica em Portugal, no
ano de 1807, Possidónio da Silva partiu para o Rio de Janeiro, no Brasil, junto
com sua família. Lá, passou parte de sua juventude.
Em 1824, com dezoito anos de idade, Possidónio da
Silva foi estudar Arquitetura na École des Beaux-Arts, em Paris, França. Entre
1829 e 1830, esteve em Roma, mas retornou a Paris para trabalhar no Palais
Royal e no Palácio das Tulherias.
Em 1833, Possidónio da Silva regressou a Portugal,
onde se tornou arquiteto da Casa Real. Participou nas obras dos Palácio da
Pena, São Bento, Necessidades e traçou o Palácio do Alfeite.
Entre 1851 e 1853 foi o 2.º Grão-Mestre da Grande
Loja Provincial do Oriente Irlandês.
Foi no final da década de 1850 que adquiriu do
Governo apoio para o primeiro levantamento dos monumentos nacionais. Possidónio
da Silva procurou também, por meio de jornais, informar o público da
necessidade de preservar o património arquitetónico português.
Em 1867, durante a Exposição Internacional de
Paris, realizou-se a segunda sessão do Congresso Internacional de Antropologia
e Arqueologia Pré-histórica, em que Possidónio da Silva obteve o primeiro
contacto com as práticas da Arqueologia, em especial a escavação estratigráfica
e sectorial. Em 1878, em seu livro “Noções Elementares de Archeologia”,
Possidónio da Silva publicou uma síntese desses métodos.
Possidónio da Silva foi fundador e presidente da
Associação dos Arquitectos Civis Portugueses que passou a se chamar Real
Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses, antes de se cindir,
já depois da morte do Joaquim, e dar as atuais Ordem dos Arquitectos e
Associação dos Arqueólogos Portugueses (AAP).
Também foi membro do Instituto de França e da
Société française d'archéologie.
Joaquim Possidónio Narciso da Silva faleceu a 23 de
março de 1896.
Pode saber mais sobre a gruta de Alcobertas, em:
Cidadania
RM - Rio Maior: Gruta de Alcobertas (rio-maior-cidadania.blogspot.com)