Pesquisar neste blogue

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Cabeço de Porto Marinho

Quem olha para esta imagem diz que é mais um local clandestino para depositar entulho e restos de mobiliário.
Este local fica perto das Salinas de Rio Maior a cerca de 500m para SE.
O triste e incompreensível é que este espaço é um dos locais mais relevantes de Portugal relativamente a achados dos períodos Magdalenense e Mesolítico.

Mais triste é dizer que este é um local raro em que se consegue recolher provas sobre a evolução da humanidade pois foram encontrados achados dos períodos: Gravetense, Proto-Solutrense, Magdalenense, Mesolítico, Neolítico Antigo, Calcolítico, Idade do Bronze e Romano. Portanto estamos a falar de um período que cobre uma parte significativa da humanidade que vai dos anos 28.000a.C até ao fim do período Romano, 400d.C.

Falando sobre o Paleolítico Superior e transição para o Neolítico (que inclui os períodos Magdalenense e Mesolítico), convém referir que a região de Rio Maior era bastante diferente da atual.
O tempo era instável e vivia-se alternâncias entre épocas glaciares e interglaciares. O mar estava bastante mais longe (a terra estendia-se por mais 30km para Oeste) pois o nível médio das águas do mar era mais baixo (entre 60m e 100m) e a vegetação também era diferente (composta por charnecas, pinheiros e carvalhos).
Na imagem seguinte consegue-se ver um mapa da Europa da altura do Paleolítico. Como curiosidade constata-se que a atual Inglaterra estava ligada à placa continental.
Pelo tipo de vestígios deixados relativos às matérias-primas usadas e modos de organização social é de prever que os habitantes do centro de Portugal estivessem divididos em 3 grupos étnicos.

Passando a falar do sítio arqueológico “Cabeço de Porto Marinho”.
É um habitat localizado em Rio Maior, na vertente Sul de um cabeço sobranceiro ao vale das ribeiras de S. Gregório e da Pá.
A jazida foi descoberta em 1986 e já na altura se encontrava parcialmente destruída por ação de um areeiro e pela plantação de eucaliptos.
O espólio encontra-se espalhado por uma área com cerca de 2500m2 sendo até ao momento escavado cerca de 5% do total.
As peças encontradas são: Indústria lítica (lâminas, lamelas, raspadeiras, raspadoras, buris...), cerâmica neolítica, do Bronze e romana. O espólio proveniente das escavações de 1987 e 1988 encontra-se depositado nas instalações do Museu Nacional de Arqueologia.
As peças que foram datadas de forma absoluta, por luminescência ou radiocarbono, vão de 19220+/-280 anos até 3030+/-90 anos.



Foram 13 os trabalhos realizados neste sítio arqueológico. 
    Prospeção (2019) - Plano de Pormenor e Salvaguarda das Marinhas do Sal, Rio Maior 
    Prospeção (2011) - Revisão do PDM de Rio Maior 
    Escavação (1998) - PNTA/98 - A Pré-História do Maciço Calcário 
    Escavação (1994) - As adaptações humanas durante o Plistocénico 
    Escavação (1993) - As adaptações humanas durante o Plistocénico 
    Escavação (1992) - As adaptações humanas durante o Plistocénico 
    Escavação (1991) - As adaptações humanas durante o Plistocénico 
    Escavação (1990) - As adaptações humanas durante o Plistocénico 
    Escavação (1989) - As adaptações humanas durante o Plistocénico 
    Levantamento (1989) - Carta Arqueológica do Parque Natural das Serras d'Aire e Candeeiros 
    Sondagem (1988) - As adaptações humanas durante o Plistocénico 
    Sondagem (1987) - As adaptações humanas durante o Plistocénico 
    Estudo de Espólio (1986) - Carta Arqueológica de Rio Maior

Estes locais têm de ser identificados, protegidos, estudados e cuidados.
Em Julho de 2017 e perto deste local (a menos de 200 metros) uma área contendo vestígios romanos sofreu uma terraplanagem com movimentação de terras feitas pelo proprietário mas sem nenhum controlo. O que é perdido agora, nunca mais poderá ser recuperado. O local da terraplanagem ainda continua hoje sem nenhum propósito.

Sem comentários:

Enviar um comentário