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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Estudo de 1867 para abastecer água a Lisboa


Em 1867, foi realizado um estudo por Carlos Ribeiro, da Comissão Geologica de Portugal,  editado em livro, com o título “O Abastecimento de Lisboa com aguas de nascente e aguas de rio”.
 
 
Para se ter uma ideia da necessidade de água em Lisboa, por volta de 1867, pode-se ler na página 34:
“O volume d’aguas potaveis de que Lisboa dispões, a muito custo chega no estio para as necessidades physicas dos seus habitantes. A maioria dos domicílios em Lisboa são habitados por famílias de quatro a oito pessoas. Estas são condemnadas a remir-se durante os calores estivais do nosso clima com 40 a 60 litros d’agua em cada 24 horas, ou, termo medio, com 8 litros d’agua por individuo, quando nos mezes de junho a agosto a temperatura da nossa atmosphera se eleva a 30º e 26º centigrados, e Lisboa se converte em uma verdadeira estufa!
Semelhante estado de carencia do principal elemento da vida e sem o qual não ha hygiene possivel, nem tão pouco industria nem civilisação, é assumpto em demasia grave e momentoso para preoccupar, e muito, a attenção dos homens illustrados.”
 
Na página 35, aparecem as primeiras referências aos dois rios do concelho, o Rio Maior e a Ribeira das Alcobertas:
“... Se esta vital questão tivesse sido encarada de mais alto no começo do seculo findo, e os 5:000 contos de réis que se dispenderam com as nossas, aliás monumentaes, obras das aguas livres tivessem sido empregados na acquisição e conducção para Lisboa das aguas do Tejo, do Almonda, do Alviela, das Alcobertas, ou de Rio Maior, hoje em vez das crueis sedes e das decepções por que temos passado, veriamos Lisboa dotada com abundantes aguas potaveis para seu uso, e não teriamos de preoccupar-nos com a questão do presente e do futuro abastecimento do modo por que nos vemos obrigados a fazel-o.”

 
Depois de descrever o aproveitamento das águas do Tejo, o autor passa a secrever as nascentes e a partir da página 72, pode-se ler o seguinte:
“Grandes nascentes entre Alemquer e Torres Novas. – Em geral as nascentes mui volumosas d’aguas existem de preferencia nas regiões de calcareos endurecidos, cujo relevo se levanta a altura sufficiente para desenvolver vastas superficies de apanhamento das aguas pluviaes, e poder offerecer uma derivação a essas mesmas aguas por um limitado numero de pontos, mas em volumosas massas. (...)
Isto posto, faremos agora um breve exame das condições em que se acham as aguas d’estas procedencias e que podem ser aproveitadas no abastecimento de Lisboa.
Nascente d’Alemquer. – (...)
Nascente d’Otta. – (...)
Nascente de Rio Maior. – As nascentes de Rio Maior brotam: umas em um sitio mui fragoso denominado as Bocas, e que fica entre 2 e 3 kilometros ao poentes d’aquella villa; outras a jusante d’aquele sitio. As Bocas acham-se precisament no fundo de uma estreita garganta, cortada nos calcareos jurassicos endurecidos, e cujas paredes alcantiladas não teem menos de 50 a 80 metros d’altura relativa.
Esta garganta é a unica passagem das aguas pluviaes que vém do lado d’oéste, ou antes é o ponto de confluencia de diversos valleiros que vém da região dos calcareos jurassicos que se estende para aquelle lado.
D’aquellas nascentes, as que brotam nas Bocas e em nivel mais alto, estacam desde o fim da primavera até ás primeiras aguas outonaes. As que manam para jusante da garganta e na parte onde o valle começa a alargar, conservam-se pela maior parte permanentes, sendo estas ultimas as que alimentam a ribeira durante o estio. O volume d’estas nascentesfoi por nós estimado na estiagem de novembo de 1863 em 15 mil metros cubicos por dia.
As altitudes d’estas nascentes são differentes. Segundo a Carta Chorographica a que já nos temos referido, variam entre 70 e 90 metros aproximadamente.
O valle de Rio Maior corre desde a villa d’este nome até á Boca das Tres Vallas por uns 18 a 20 kilometros, seguindo differentes rumos no quadrante suéste. Este valle é aberto nas camadas arenosas e calcareas do periodo quartenario; os seus flancos são abruptos, e o seu fundo, largo e plano, está occupado por despositos alluviaes recentes.
A Boca das Tres Vallas está situada a uns 10 kilometros a oésnoroéste de Santarem: é o ponto onde se reunem as ribeiras de Rio Maior, de Fragoas ou das Alcobertas, e d’Almoster; ponto aliás importante a considerar para a reunião de todos os aqueductos que devem trazer a Lisboa as aguas do seu principal abastecimento.
O volume das aguas a reunir em Rio Maior ainda será possivel augmental-o até 18 ou 20 mil metros cubicos diarios, explorando os valleiros que d’aquelle ponto se dirigem para Pé de Serra e para Têra, e bem assim as arenatas quaternarias que se estensem para nordéste d’aquella villa.
Deixando em Rio Maior 6 ou 7 mil metros cubicos d’aguas e tomando as restantes na altitude de 70 metros poderão os 8 ou 9 mil metros cubicos restantes chegar á Boca das Tres Vallas com 60 a 65 metros d’altitude. N’este logar poder-se-hão juntar com as aguas de drenagem e conserva obtidas da charneca que demora ao poente do valle de Rio Maior e situada na grande depressão mencionada mais acima. Para transportar estas aguas desde as suas nascentes até á Boca das Tres Vallas, é necessaria a construcção de um aqueducto de 20 kilometros de comprimento mais ou menos.
Nascente das Alcobertas. – As nascentes das Alcobertas brotam de uma assentada de calcareos argillosos do periodo jurassico, a qual se vê junto á grande parede de deslocação a que temos alludido, e em uma altitude de 110 metros aproximadamente. O seu volume foi por nós estimado em novembro de 1863 e na maior força da estiagem, em 5 mil metros cubicos diarios.
Estas aguas dão origem á ribeira das Alcobertas ou de Fragoas, a qual depois de percorrer 21 a 22 kilometros, vae entrar na Boca das Tres Vallas, tendo recebido no seu trajecto diversos pequenos tributarios com os quaes chega ali bastante engrossada. O valle d’esta ribeira é mais ou menos apertado desde as Alcobertas até aos Casaes do Alqueidão do Rei; aqui torna-se immensamente fragoso, de flancos apertados e mesmo alcantilados; para jusante da freguezia de Fragoas torna a ser menos apertado; e entrando na região dos calcareos quaternarios, converte-se em um valle estreito de flancos mui altos e abruptos, continuando assim até perto da Boca das Tres Vallas.
As aguas das Alcobertas podem ser recebidas em um aqueducto dirigido ao longo de um dos flancos do valle d’esta ribeira. Deixando n’aquelle local 2 a 3 mil metros cubicos das nascentes, será a parte restante conduzida para a Boca das Tres Vallas. Além d’este volume podem ainda adquirir-se pelo valle abaixo, 8 a 13 mil metros cubicos d’agua diarios, pela drenagem do solo da charneca entre Rio Maior e Tremez, e especialmente nos leitos das numerosas ribeiras e regatos que constituem a bacia, aliás bastante importante, da ribeira das Alcobertas. Para o transporte d’estas aguas até a Boca das Tres Vallas será necessario construir um aqueduto de 22 a 23 kilometros de comprimento.
Nascente do Alviella ou dos Olhos d’Agua. – (...)
Nascente do Almonda ou do Moinho da Fonte. – (...)
(...)
Considerações sobre os projectos para a derivação das aguas das nascentes indicadas. – Do que fica exposto vê-se que as aguas de Rio Maior podem ter um ponto de partida com 70 metros d’altitude pouco mais ou menos, e devendo percorrer um trajecto de 18 a 20 kilometros até á Boca das Tres Vallas, chegarão ali com 64 a 66 metros sobre o nivel do mar. As aguas das Alcobertas teem pouco mais ou menos 110 metros d’altitude na origem; deverão correr por um aqueducto de 21 a 22 kilometros até ao indicado ponto da Boca das Tres Vallas, e por conseguinte podem chegar ali com 100 a 105 metros d’altura sobre o mar. As dos Olhos d’Agua ou do Alviela, enfim, partindo com 60 metros de cóta e devendo percorrer um aqueducto de 45 a 48 kilometros até á Boca das Tres Vallas, poderão chegar a este ultimo logar com a altitude de 50 a 54 metros, ou talvez menor, segundo o numero e a extensão dos siphões de que se fizer uso para vencer as quebradas do solo.
As aguas enumeradas n’este capitulo, são em nosso entender as unicas a que póde recorrer-se para um largo abastecimento de Lisboa. As que brotam desde Rio Maior até ao Moinho da Fonte, reunidas como temos dito na Boca das Tres Vallas, seriam conduzidas a Lisboa por um só aqueducto. (...)”

 
A partir da página 77, fazem-se estudos económicos com várias opções:
“a) Aqueducto geral desde os Olhos d’Agua até Lisboa pela Boca das Tres Vallas:
(...) Total – 4:490 contos
b) Aqueducto dos Olhos d’agua passando em Rio Maior:
(...) Total – 3:700 contos
c) Adoptando sómente as aguas do Tejo, e que d’estas se tomem 30 mil metros cubicos filtrados e 120 mil não filtrados, teremos:
(...) Total – 4:200 contos
Comparando estas cifras entre si, vê-se: 1º que o projecto mais economico é o que levar as aguas do Alviela a Lisboa por Rio Maior; 2º (...)”
 
O estudo, não passa ao lado dos problemas que se podem causar às regiões abrangidas pelas bacias hidrográficas dos rios, quando parte ou a totalidade da água lhes é retirada e o Capitulo VII começa mesmo por esta problemática:
“Inconveniente de se derivarem as aguas do Alviella, das Alcobertas, de Rio Maior e de outras nascentes. – (...)
... ; mas é tambem certo que se a agricultura do nosso paiz e todas as industrias mais immediatamente dependentes d’ella estivessem no pé, não só aconselhado, mas altamente reclamado pelas condições especiais do nosso solo, ninguem encontraria no Almonda, no Alviella ou nas Alcobertas um litro d’agua de sobra para o requesitar para o abastecimento de Lisboa, quando aliás este abastecimento se poderia fazer com aguas de outras origens. Será necessario renegar do progresso material e moral da nossa terra para não acreditar com viva fé que a nossa agricultura dentro em poucos annos se hade regenerar; com essa regeneração o paiz mudará a face, e a riqueza publica desenvolver-se-ha a largos passos. As aguas de rega serão um dos mais poderosos meios de que os nossos agricultores, ajudados pelas medidas sabias dos poderes publicos, se soccorrerão para fecundar e desenvolver a prosperidade da nossa principal industria.
(...)”

Palávras sábias de alguem que nasceu há 200 anos atrás.
Carlos Ribeiro nasceu em Lisboa a 21 de Dezembro de 1813 e faleceu também em Lisboa a 13 de Novembro de 1882.

 

Para saber mais sobre o Rio Maior, consulte:
 
Para saber mais sobre a nascente da Ribeira de Alcobertas, consulte:

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