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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Cristãos Novos

Massacre
Foi a 19 de Abril de 1506 (Fez ontem 506 anos) que se deu o início do Massacre de Lisboa, também conhecido como Matança da Páscoa ou ainda com Pogrom de Lisboa (Progrom é um ataque violento e maciço a pessoas com a destruição dos seus bens). Nesta matança que se prolongou por três dias, uma multidão perseguiu, torturou e matou centenas de pessoas acusadas de serem judias.
 
Árabes
A península Ibérica foi conquistada pelos Árabes entre os anos 711 e 713. A este novo espaço foi dado o nome de al-Garb al-Andalus (daqui advém o nome de Algarve). Na atual Estremadura portuguesa, desenvolveram-se os centros urbanos de al-Usbuna (Lisboa) e de Santarin (Santarém).
Os vestígios da longa permanência muçulmana são relativamente poucos, principalmente porque a política dos conquistadores cristãos foi a de destruir cada localidade retomada aos árabes e a de queima dos seus pertences. Mesmo assim, chegaram alguns vestígios árabes até aos nossos dias como a atual igreja matriz de Mértola (Antiga mesquita).
Também no concelho de Rio Maior é difícil identificar um vestígio que sem qualquer dúvida se possa caracterizar como muçulmano. Isto a pesar das muitas lendas e atribuições de nomes árabes a algumas construções, como a torre mourisca (S.J. da Ribeira), fonte mourisca (Assentiz), ...
D. Afonso Henriques nasceu em 1109 (ou 1108) e passa de facto a governar o Condado Portucalense em 1128. Em 1145 conquista Leiria, em 1147 Santarém e no mesmo ano Lisboa. O Algarve foi a última porção de território português a ser definitivamente conquistado aos mouros em 1249, no reinado de D. Afonso III.
Para evitar abusos aos muçulmanos por parte dos cristãos, ainda no século XII, D. Afonso Henriques outorgou aos mouros uma carta de fidelidade (amizade) e segurança. Nesta carta o novo rei dava liberdade aos mouros e garantia que a nenhum cristão seria reconhecido o direito de os maltratar.

Judeus
Acredita-se que os primeiros judeus chegaram à Península Ibérica ainda durante o reino do rei Salomão (970-931 a.C.), com os comerciantes de Tiro (fenícios).
As sucessivas invasões a Israel causaram a dispersão do povo hebreu pelo mundo (Diáspora). Estes exilados fizeram crescer em grande número a população judaica na Península Ibérica, na qual fundaram muitas comunidades e contribuíram para o florescimento cultural, económico e científico.
Em Santarém a comunidade judaica era numerosa e próspera já no período muçulmano. Estando Santarém no coração da lezíria e com uma localização privilegiada, foi desde sempre um próspero centro agrícula e comercial onde afluíram judeus. A Judiaria (bairro judeu) de Santarém constituiu uma das sete comarcas definidas por D. Dinis (1279-1325) e foi reconfirmada por D. João I (1385-1433). Em Santarém, os judeus dedicavam-se às atividades artesanais e intelectuais.

Morte aos Hereges
O combate aos hereges, começou a tomar forma com um tratado escrito pelo abade Pedro, que chefiava a abadia de Cluny em França, durante o século XII. Ele afirmava que para eliminar a heresia do seio da Igreja Católica era necessária uma purgação a realizar em quatro fases: Investigação, discussão, achado e defesa. Assim, começou-se a desenhar a Inquisição.
A Inquisição entrou em decadência com o Renascimento (século XV), mas em Espanha e Portugal ela foi revigorada, com a perseguição não apenas dos hereges, mas sobretudo dos judeus.
Porque é que os judeus passaram a ser considerados ‘criminosos’?
No século IV o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império Romano, mas já no ano 325, o Concílio de Niceia culpava os judeus pela morte de Jesus (esta acusação só foi retirada pelo Vaticano em 1965). Esta hostilidade aos judeus advém em grande parte do ‘Novo Testamento’ em que existem referências que podem ser entendidas como os judeus terem sido os culpados pela morte de Jesus e de terem ligações com o diabo. Os pregadores cristãos começaram a falar mal dos judeus e assim começaram a crescer os mitos da ligação deles com rituais e atitudes satânicas. O anti-semitismo foi crescendo cada vez mais sendo os judeus acusados de todos os males que ocorriam, como secas e pestes. Os direitos e liberdades dos judeus começaram a ser restringidos.
A Inglaterra expulsou os Judeus em 1290 e a França em 1306. A Espanha em 1391 assassinou cerca de 4 mil judeus em Sevilha. Para escapar à morte, milhares de judeus espanhóis procuraram o batismo, embora muitos continuassem a praticar a sua religião secretamente. Em 1478, o papa Xisto IV, autorizou a criação oficial do Tribunal da Inquisição em Espanha. Como o confisco dos bens dos acusados pela Inquisição era norma, esta passou a ser uma ferramenta usada para o saque aos bens dos judeus. Em 1492 os reis espanhóis decretaram a expulsão de todos os judeus que não aceitassem a imediata conversão ao cristianismo. Quase 150 mil judeus atravessaram a fronteira e vieram para Portugal.


Cristão Novos
Em Portugal os cristãos, muçulmanos e judeus mantinham uma boa convivência.
O rei D. Manuel I decidiu casar com Isabel, filha dos reis espanhóis que exigiram que Portugal expulsasse os judeus. Como os judeus eram responsáveis por uma importante parcela da economia nacional o rei preferiu transformá-los em Cristãos Novos por meio de um batismo forçado em 1497.
A violência explodiu em 1506, com o massacre de Lisboa, conforme está descrito no início deste artigo.
Em 32 de Maio de 1536, o rei D. João III teve autorização do papa para instalar a Inquisição em Portugal. A partir desta data foram mortos muitos Cristãos Novos nos autos-de-fé da Inquisição e estes tribunais foram usados para retirar os bens aos acusados que por muitos eram cobiçados.
Durante o período dos reis espanhóis (1580-1640) a Inquisição teve de alargar a sua base de apoio e controlo da população. Foram criados os conhecidos Familiares do Santo Ofício que tratavam-se de agentes locais da Inquisição com a função de recolherem informação, denunciarem, acompanharem a prisão e participarem no saque dos bens do condenado.
O Marquês de Pombal, foi dos poucos políticos que conseguiu dominar a máquina da Inquisição e em 25 de Maio de 1773, acaba com a distinção entre Cristãos Velhos e Cristãos Novos.
A Inquisição acabou oficialmente em 1821 em Portugal e em 1834 em Espanha.

Descobrimentos Portugueses
Os descobrimentos Portugueses, foram o conjunto de viagens e explorações marítimas realizadas entre 1415 e 1543 pelos portugueses.
Interessante é relacionar a fase de ouro da nacionalidade portuguesa com a época de grande tolerância e boa convivência entre povos que aqui habitavam. De notar que desde o final do século XIII os judeus vêm sendo escorraçados das outras nações europeias e que tinham em Portugal um porto seguro. No início do século XVI começaram os problemas também em Portugal, coincidindo com o final da época dos descobrimentos.
Os judeus, mouros e gentes de outras terras que viviam em Portugal estiveram sempre na frente das explorações marítimas com novos conhecimentos e técnicas de navegação. Por exemplo, Abraão Zacuto que esteve em Portugal foi o autor de um novo e melhorado Astrolábio e editou em 1496, numa oficina em Leiria, as Tábuas Astronómicas para os anos de 1497 a 1500 (As Tábuas permitiam aos navegadores orientarem-se pelas estrelas).


Rio Maior
Nesta altura e quem teve a paciência de ler esta síntese histórica, deve-se estar a questionar da razão da existência deste artigo num blog relacionado com a região de Rio Maior.
Só peço um pouco mais de paciência que a ligação está quase a chegar.
Num censo realizado em 1527, identifica-se que em número de vizinhos (vizinhos eram famílias e em média representavam 5 pessoas) a distribuição na região era a seguinte: Arruda – 27; Outeiro – 13; Cortiçada – 6; Correias – 14; Rio Maior – 98; Arrouquelas – 5; Malaqueijo – 24;  Assentiz – 13; Marmeleira – 11; Sourões – 14; Alcobertas e Alqueidão – 40; Teira e Fonte Longa – 16 e Cabos – 6.
Parece-me um número muito reduzido de habitantes para uma zona que se encontra muito perto de Santarém (perto mesmo para os meios de locomoção da época) e para uma terra fértil em termos agrícolas, com muita água, com um subsolo rico em minerais e na altura com muita e variada fauna.
Também existem relatos que não se coadunam com uma terra de pequenas dimensões, como: D. Fernando (reinou entre 1367 e 1383) visitou várias vezes Rio Maior para descansar e caçar; existe uma referência a D. Fernando ter vindo para Rio Maior com a sua Côrte após assinada a paz com Castela; D. Pedro, duque de Coimbra ficou em Rio Maior antes da batalha de Alfarrobeira (onde veio a falecer); ...
Em Arrouquelas, por exemplo, enquanto em 1527 só foram identificadas 5 famílas, existem relatos de nesta aldeia já ter havido: Uma possível mesquita (vestígios encontrados por baixo da atual igreja); várias fontes de mergulho muito antigas; um açude em estacaria de madeira associado a uma azenha; uma fábrica de Tijolo Ladrilho; uma ferraria; um lagar; ...
Embora algumas destas referências possam não ser completamente verdadeiras, quero é evidenciar o aparente desfasamento entre o número de habitantes em 1527 e a importância e ocupação que as terras da região tinham.
Sabendo que esta região era habitada por mouros e judeus e que a partir de 1506 começou o massacre, arresto de bens e destruição das edificações dos Cristãos Novos, é muito provável que aqui também tenha havido um massacre.
Continuando com o exemplo de Arrouquelas e com base no artigo referenciado a seguir que se encontra no site da Junta de Freguesia de Arrouquelas, junto à igreja, existe um local (os Mor Tórios) que segundo a lenda, houve aí uma grande mortandade.

Apesar desta época da história portuguesa ter partes bastantes escuras, seria bom realizar um estudo mais exaustivo pois para criarmos um futuro sólido e coerente é fundamental conhecermos o nosso passado, pelo menos, para não voltarmos a cometer os mesmos erros.

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