Descrição da Gruta de Alcobertas
feita por Bernardino Arede Soveral na publicação “Diario Illustrado, nº127” de 4
de Novembro de 1872.
A descrição é um pouco longa, mas vale a pena pela emoção que o autor coloca na descrição do que o envolve.
Vou iniciar a descrição quando
acenderam as tochas na entrada da gruta. Deixei a transcrição em português
antigo para não a adulterar.
De lembrar que a Gruta de
Alcobertas a esta data era considerada uma das mais bonitas da Europa.
“Accenderam-se portanto, e distribuíram-se os brandões de cera que levavamos.
Bem depressa a luz do dia desappareceu, e esta especie de procissão caminhava á
luz das tochas. Eramos ao todo 9 pessoas.
Tinhamos caminhado uns 15 a 20 metros, e a gruta já tinha uma
capacidade de 3 metros de alto e 2 de largo : nas paredes d’ella começavam a apparecer
camadas de diversas crystalisações, que similhavam um forro de musgo ; mas tão
branco e transparente, como se uma camada de neve, em manhã d’inverno, houvesse
cahido por cima d’elle, conservando-lhe a fórme ramosa. Era lindo ver como as
nossas luzes faziam refulgir uns reflexos cambiantes d’aquelles grumos aparentes
de um orvalho gelado.
Tenho visto algumas grutas que há no paiz. Li na excelente obra de
Adolphe Joanne (Voyage ilustrée dans les cinq parties du monde) as descripções
de diversas grutas, e não encontrei alli, como na gruta que descrevo, tantas,
tão variadas e tão imponentes crystalisações, em uma distancia de mais 300
passos, com abobadas de cinco a nove metros de altura, recamadas de
estalagmites admiraveis pelo volume, pelas côres, pela transparência e pelo
brilho. É realmente surprehendente o ver como das paredes da galeria brotam
umas crystalisações como se fosse vegetação de marmore e vidro, aflorando
aquellas superfícies perpendiculares ; outras vezes, pousando aquelles ornatos
sobre uns degraus que vão esconder-se nos franjados que pendem dos extremos da
abobada: faz parecer que uma cascata acabava de se gelar n’aquelle momento.
A gruta de Alcobertas tem de extensão 210 metros : a galeria d’ella tem
algumas curvas, e a não ser necessário subir e descer em trez logares, a 2 e 3
metros de altura, podia caminhar-se até ao fim em um plano quasi horisontal. Não
é necessário descer a perigosas profundidades, como na famosa gruta das fadas,
na cordilheira da Serane, onde Cimarozza, descendo ao abysmo do monte Tharene,
e escutando os sons das harpas eólicas, recebiam, das correntes do vento,
lições de harmonia. Esqueceu-me levar uma bussola para conhecer a direcção da
galeria, mas pareceu-me que seguia o dorso da montanha, para o lado do Sul.
A gruta contém quatro grandes salões, o ultimo dos quaes, é colossal :
em toda a galeria não há o menor espaço de pedra nua ; a abobada e lados d’ella,
a não terem algumas agglomerações de crystal de rocha, podia dizer-se que eram
completamente forradas de crystaes, de carbonato de cal, coloridos, brancos,
opacos ou transparentes, e por isso, despertando sempre a curiosidade, pela
variedade dos quadros que apresenta.
Em alguns dos intervallos dos quatro salões, há umas curvas com uns pórticos
assimilhando diversas entradas para outras galerias. Apparecem alli, em um d’elles,
uns cortinados, pendentes de uma especie de architrave, e assimilhando as
pregas e apanhados de tecidos, encorpados, dando reflexos como se fossem
bordados de lantejoulas. Em outros, nota-se a similhança de bambinellas, que
ora se escondem para o centro de largas fendas cavadas nos flancos da rocha,
cheias de sombras que resistem á força das nossas luzes; ora deixando apparecer
na altura de 5 a 18 decimetros um agrupamento de colunas alvíssimas, de diametro
entre um e tres decimetros. Aquellas tapecerias consistem de uma lindíssima aggregação
de crystalisações calcareas, tão unidas e lizas, que o lápis mais experiente,
não assombra com tanta suavidade, as voltas do encanudado de um formoso pavilhão.
Ninguem dirá que teem a dureza da pedra, aquelles apanhados de pregas, de dois
a trez metros de altura, coloridos diversamente por via das infiltrações de
almagre, que alli ha em abundancia, e, mais ou menos saturados pela côr
vermelha d’elle, formando um contraste admiravel sobre a brancura das columnas.
O primeiro salão que eu denominei – dos órgãos – é um dos que mais me
encantou. Tem quasi cinco metros de alto, e quatro de largura : nos lados e
frente levantam-se uns pórticos em ogiva, de aberturas e ornatos diversos.
Notam-se alli desde a cúpula até á base, ao lado esquerdo de quem vae,
umas laminas separadas parallelamente por intervalos desde dois decimetros até
dez centimetros, que assimilham a uns bastidores colossaes, de uma superficie aparentemente
lapidada, e de uma espessura de 5 a 8 centimetros : póde introduzir-se por
entre ellas um braço, e por isso collocámos algumas das nossas luzes na
lombada, deixe-me assim dizer, d’aquelle enorme livro meio aberto ; e que lindo
efeito isto produzia! Alguns de aquelles diaphragmas, apesar de bem espessos,
teem muita transparencia, e deixam coar, entre as luzes, uns reflexos
açafroados, lindíssimos.
Outros de maior espessura, e com aberturas eguaes, parecem os tubos
perpendiculares de um magestoso orgam, e com a notável circumstancia de que,
batendo-lhes levemente, davam uns sons prolongados, e muito similhantes aos que
são vibrados por um relogio em que a mola substituiu a campainha.
Entre este 1º e o 2º salão que eu denominei – das estatuas – é mister
passar, subindo e depois descendo, por cima de um rochedo admirável, e que mede
apenas metro e meio de elevação.
Surprehendeu-me a quantidade de fulgor dos lampejos que se despediam da
superfície d’este penhasco, quando se fazia oscilar diante d’elle uma luz.
Aquella pedra tem uma superficie escura e aveludada ; parece forrada de feltro,
e sendo este comprimido pela mão, abate-se, e os lampejos desapparecem. Todavia
creio que reapparecem; porque aquella pedra tem sofrido muitos attrictos, na
passagem dos que visitam a gruta, e nós encontramol-a radiante dos seus
crystaes, e tão brilhantes que pareciam milhões de pyrilampos a esvoaçar por
meio das sombras.
A poucos passos do indicado penedo, encontra-se o 2º salão – o das
estatuas : elle tem um não sei que de triste. É um âmbito curvo, de extensão
aproximada a 11 metros, conservando uma largura de 5 metros, e 6 de altura. Ao approximar-nos
d’este recinto, parece que do centro das sombras se levantam aqui e alem, umas
estatuas, á altura de 1 metro e metro e meio.
Aquelles vultos são de uma apparencia tal, que é necessario vel-os de
perto para crér que o cinzel do estatuario não andou por alli esboçando figuras
humanas.
Aquellas estatuas, deixem-me assim chamar-lhes, estão em semi-circulo,
e no eixo da curva, há uns penhascos tambem cobertos de crystalisações ; porém,
com quanto muito resplandecentes, assentam n’uma superfície escura, e entre elles
ha umas aberturas elipticas, que dão a apparencia de arcadas, além das quaes
tudo são sombras.
Pareceu-nos este logar a parte central das abobadas subterraneas, próximas
a Seringapatan, onde existem os mausoleos das dynastias musulmanas de outras
eras.
O 3º salão designei-o – A catedral; - porque se assimilha ás ruinas de
um templo grandioso, conservando-se ainda de pé uns restos surprehendentes que attestam
a sua primeira magnitude.
O espaço é oblongo ; tem 6 metros desde a base até á abobada, e na sua
maior largura 5 metros.
De um lado vê-se uma rocha elevada, do volume e feição de um pulpito.
As paredes, recamadas com innumeraveis crystalisações de uma belleza que não
póde descrever-se, estão fendidas a prumo, assimilhando gradamentos meios destruidos.
A um dos lados vê-se uma saliência na rocha, com uns córtes tão em
esquadria que fazem parecer um altar, sobre o qual pendem, á altura de 4
metros, umas curvas orladas de franjas, compostas de pequenos tubos com a transparencia
cambiante de madreperolas, e terminadas por umas gotas d’agua, que de espaço a
espaço descem a luzir até ao solo, constituindo uma perspectiva impossivel de
pintar.
Dos outros lados d’este salão, pendem, junto á abobada, uns ornatos,
como capíteis corinthios, com as suas folhas de acantho, e pousando sobre umas
columnas, brancas como jaspe, parte das quaes parecem quebradas pelo meio, e
parte veem-se estendidas entre pequenos montes de crystal de rocha.
Fazem lembrar aquellas esplendidas crystalisações, os delineamentos da
architectura phoceana, similhante á que os Egypcios empregaram no templo de
Karnac.
O 4º e ultimo salão é enorme, e fechado por uma grande cúpula de 6
metros de diametro, na altura de 9 metros!
Alli, o sr. Germano do Souto, nosso intrépido companheiro, subiu a um
rochedo de 4 metros de altura, que está a um lado, e levantou a luz do seu
brandão. A oscillação d’ella com as de todas as nossas tochas, formava um
conjunto de reflexos tão bellos, que a mente mais opulenta de ficções
grandiosas, por muito prevenida que estivesse havia de extasiar-se alli, e conhecer
que a descripção mais cheia de pompa, não ia além dos traços de uma miniatura
imperfeita. Lembrei me n’aquelle enorme subterraneo do infeliz Francisco I.
Caldas, morto na Bolivia pelas commoções politicas, porque me veio á mente a
descripção que elle faz da famosa caverna Guaya Suma, proximo ao gigantesco
Chimboraso, na cordilheira dos Andes.
N’este 4º salão, ha, na sua maior altura, duas grandes aberturas
allipiticas, que indicam o seguimento de outras galerias.
Não fomos lá ; porque só faltava escada própria para hir áquella altura
; mas tambem porque ninguem se afoitára ainda a hir além do ponto aonde nós
fomos. Conta-se que um explorador ousado, quis tentar a investigação do resto
da gruta, mas ficou transido de terror, pelos precipicios que vira, e desistira
do intento.
É possivel que seja isto verdade, e se effectivamente quem intentar a
exploração do resto da gruta, deve munir-se de cordas e bons companheiros,
sondando com toda a cautella a solidez do fundo das galerias, e verificando de’espaço
a espaço se o ar é nocivo á respiração.”
Pode saber mais sobre esta gruta
em:
http://rio-maior-cidadania.blogspot.com/2010/04/gruta-de-alcobertas.html
Bernardino Passos de Arêde
Soveral Tavares , nasceu a 20 de Fevereiro de 1815 em Aveiro e Faleceu a 30 de
Janeiro de 1885 no Cartaxo. Foi juiz desembargador e senhor do Prazo de
Arrudel. Casou-se com Maria Bernardina Dias Tavares (N1823 F1895) em 1853 e
tiveram 7 filhos