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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Guerra da Patuleia. Vivência em Rio Maior


Guerra da Patuleia

Patuleia é o nome pelo qual se designa a guerra civil, entre Outubro de 1846 e Junho de 1847, travada entre Cartistas, defensores da Carta Constitucional de 1826, e Setembristas, apoiantes da Constituição de 1838. Foi desencadeada pela nomeação, depois do golpe palaciano de 6 de Outubro de 1846, a que se dá o nome de “Emboscada”, de um governo cartista que tinha como presidente o marechal João Oliveira e Daun, duque de Saldanha. Para alguns autores, o nome “Patuleia” deriva de pata ao léu (pé descalço); para outros, é um termo espanhol que significa “soldadesca sem disciplina”.
A guerra civil teve uma duração de oito meses, opondo os cartistas (com o apoio da rainha D. Maria II) a uma coligação que juntava setembristas a miguelistas. A guerra terminou com a vitória cartista, a 30 de Junho de 1847 pela assinatura da Convenção de Gramido. A paz só foi conseguida após a intervenção de forças militares estrangeiras ao abrigo da Quádrupla Aliança (Reino Unido, a França, a Espanha e a Igreja Católica).

De referir que entre 1807 e 1811 houveram as invasões francesas que debilitaram em muito as estruturas sociais em Portugal. A razão das invasões a Portugal relacionou-se com a recusa portuguesa em aderir ao Bloqueio Continental decretado por Napoleão em relação à Inglaterra, no ano de 1806.
Mas as guerras internas começaram com a Guerra Civil entre liberais e absolutistas sobre a sucessão real e que durou de 1828 a 1834.
Na Guerra Civil Portuguesa, também conhecida como Guerras Liberais, Guerra Miguelista ou Guerra dos Dois Irmãos, foi a guerra civil travada em Portugal entre liberais constitucionalistas e absolutistas sobre a sucessão real, esteve em causa o respeito pelas regras de sucessão ao trono português face à decisão tomada pelas Cortes de 1828, que aclamaram D. Miguel I como rei de Portugal. As partes envolvidas foram o partido constitucionalista progressista liderado pela rainha D. Maria II de Portugal com o apoio de seu pai, D. Pedro IV, e o partido absolutista de D. Miguel. Estiveram também envolvidos o Reino Unido, a França, a Espanha e a Igreja Católica.
Já na Primavera de 1846 ocorre a Revolução Maria da Fonte, ou Revolução do Minho, contra o governo cartista presidido por António Bernardo da Costa Cabral. A revolta resultou das tensões sociais ainda vindas das guerras liberais e pelo grande descontentamento popular gerado pelas novas leis de recrutamento militar, por alterações fiscais e pela proibição de realizar enterros dentro de igrejas.

Rio Maior esteve bastante envolvido desde o início nesta guerra civil e apesar de muito extenso, é interessante ler as referências que aparecem sobre Rio maior no Jornal “O Curioso”, um Jornal Político e Comercial de 1846 a 1847.

Antes de passar a transcrever as passagens que julgo serem relevantes, existem aspetos importantes em Rio Maior referentes a estas guerras civis:
- A Casa Senhorial D. Miguel deve o seu nome à permanência do monarca neste espaço antes da Batalha de Almoster, como pode ser visto em:
- Em 1834 o Concelho de Azambuja foi extinto por D. Maria II por represália da povoação ter estado ao lado de D. Miguel durante as lutas liberais, como pode ser visto em:
- Os Condes de Rio maior também tiveram participação relevante nestas guerras civis, nomeadamente a Condessa de Rio Maior (casada com o 3º Conde de Rio Maior) e o Duque de Saldanha (filho do 1º Conde de Rio Maior), como pode ser visto em:
- Em Rio Maior também aconteceram eventos militares de relevância durante as invasões francesas, como pode ser visto em:


Agora as passagens relevantes do jornal “O Curioso”
20 Outubro de 1846
“Portugueses! Às armas! Um punhado de assassinos se prepara na Capital do reino para vos extorquir a liberdade que comprastes com sangue e roubar-vos as regalias com que os reis passados vos remuneraram as vossas virtudes.
Portugueses! É necessário que não deixeis levar avante tão infame desígnio. Não é a primeira vez que vos vistes ameaçados pelas baionetas dos tiranos e que os debelastes sobre o campo de batalhas, nessas lides passadas de religião e nacionalidade.”
“Irrmo e Exmo Snr., O Exmo Conselheiro Manoel da Silva Passos foi ontem procurado em Alpiarça por uma força dos rebeldes estacionados em Santarém, porém não foi encontrado. Contamos reunir aqui dentro de dois dias forças populares de Alenquer, Lanceiros de Valada, Cartaxo, Rio Maior, Torres Vedras e Nazaré. Com estas forças reunidas e ocupando Peniche com gente da nossa confiança marcharemos para onde convier. Manoel da Silva Passos e José Estevão são os nossos comandantes. O povo corre de toda a parte a alistar-se debaixo das bandeiras de tão ilustres cavalheiros.”
26 Outubro de 1846
“O Visconde de Sá marchou ontem e deverá chegar no dia 27 aí (Porto). De Artilharia parte já um Destacamento. Por aqui nada de novo. Évora foi atacada pelo Barão de Estremoz com 450 infantes e 210 cavalos que foram repelidos. Estava a chegar ali o General Celestino com a força do Algarve. De Santarém saiu infantaria nº1 sem mochilas a reforçar o Barão de Estremoz. José Estevão marcha com as forças populares sobre Rio Maior.
Em 26 do corrente, José Ferreira Coelho, Alferes comandante da 2ª Divisão Telegráfica.”
29 Outubro de 1846
“Illmo e Exmo Snr. Acho-me junto a Rio Maior, 4 pequenas léguas de Santarém, a onde tenciono entrar em dois dias. O Galamba tomou a Artilharia ao Salazer e o Celestino vem sobre Évora. Deus os guarde a V. Exa junto a Rio Maior 29 de Outubro de 1915, Illmo e Exmo Snr. José da Silva Passos, Vice-Presidente da Junta Provisória do Governo Supremo do reino, O delegado da Junta, José Estevão Coelho de Magalhães.”
30 Outubro de 1846
“Illmo e Exmo Snr. Gozo o favor de assegurar a V. Exa que pela uma hora da tarde do dia de hoje, entrei no Distrito confiado à minha administração, na Vila de Rio Maior, 4 pequenas léguas distante de Santarém e assumi interinamente o Governo Civil e amanhã conto entrar na Sede de Distrito. As forças rebeldes que estão em Santarém são apenas 250 baionetas e 25 cavalos e se acham com bagagens carregadas sendo constante que evacuarão aquela Vila à porção que forem chegando as forças populares que convergem sobre aquele ponto de diferentes partes. O entusiasmo do povo é imenso, nesta Vila fui recebido a repique de sinos e fogo do ar e fica organizando-se uma força nesta Vila anseia a glória que cabe aos seus companheiros de armas pelo triunfo de uma causa tão santa como aquela em que nos achamos empenhados. Agora mesmo entrou nesta Vila a força de cavalaria nacional de lanceiros comandada pelo valente patriota Illmo Snr Adolfo Manoel Nunes e vem entrando a brigada do valente e intrépido o Illmo e Exmo Snr. José Estevão Coelho de Magalhães.
Deus Guarde a V. Exa Rio Maior 29 de Outubro de 1846. Illmo e Exmo Snr José da Silva Passos, Vice Presidente da Junta Provisória do Supremo Governo do reino, O Governador Civil Interino, Tristão de Abreu e Alburquerque.”
31 Outubro de 1846
“Illmo e Exmo Snr. Dei ontem conta a V. Exa que havia entrado no Conceilho de Rio Maior, distrito de Santarém e assumido o Governo Civil do mesmo. Expedi a seguinte circular a todos os Administradores dos Concelhos do meu Distrito para que não prestem obediência ao governo intruso, aos rebeldes ou autoridades suas, sendo eu o Magistrado superior administrativo legal até que a Exma Junta Provisória do Governo Supremo do reino determine o contrário. Fiz ativar a cobrança dos rendimentos públicos e tenho a satisfação de assegurar a V. Exa que neste concelho em oito horas realizei a receção de dinheiros públicos que fornecerão por alguns dias a brigada do comando do Exmo José Estevão de Magalhães, que ontem à uma hora deu entrada nesta Vila sendo recebido a repiques de sino e foguetes. Está-se organizando aqui uma força popular de valentes patriotas, que hoje por noite conto ficará armada e pronta para marchar para onde convenha. …”
Deus Guarde a V. Exa Rio Maior 31 de Outubro de 1846. Illmo e Exmo Snr José da Silva Passos, Vice Presidente da Junta Provisória do Supremo Governo do reino, O Governador Civil Interino, Tristão de Abreu e Alburquerque. Confere António Bernardino de Carvalho diretor da Repartição dos Negócios do Reino.”
3 de Novembro de 1846
“Illmo e Exmo Snr. Vou avançar à manhã sobre Rio Maior. Peço a V. Exa que comunique à Junta Provisória do Governo Supremo do reino o meu movimento, o que não faço por não ter tempo.
Deus os Guarde a V. Exa Quartel General em Leiria 3 de Novembro de 1846, às 8 horas da noite. Illmo e Exmo Snr Marques de Loulé, Conde das Antas.”
6 de Novembro de 1846
“Illmo e Exmo Snr. Pelo ofício que acabo de receber e que remeto a V. Exa verá que Santarém foi ontem mesmo ocupada pela coluna do conde da Taipa, Deus Guarde a V. exa Quartel General em rio Maior 6 de Novembro de 1846. Conde das Antas.
7 de Novembro de 1846
“Vimos uma carta datada de 7 do corrente em Rio Maior escrita por pessoa fidedigna que faz parte do nobre fiel e valente Exército Nacional que além de conter várias notícias de interesse por nós já publicadas diz o seguinte: Continuam a apresentar-se oficiais  e soldados fugidos da capital”
9 de Novembro de 1846
“Illmo e Exmo Snr. Vou marchar com todas as minhas forças para Santarém, não só para ocupar tão interessante ponto, como para dar a mão às tropas fieis do Alentejo e Algarve, que hoje devem estar reunidas em Évora. Deus Guarde a V. Exa Quartel General de Rio Maior 9 de Novembro de 1846. Conde das Antas. Illmo e Exmo Snr. Francisco de Paula Lobo d’Avila.”
10 de Novembro de 1846
“Illmo e Exmo Snr. Ontem entrei nesta Vila (Santarém), com toda a força do meu comando e já se principiou o restabelecimento das linhas, estando seguro que não há força que de aqui possa expulsar-me. Em Rio Maior deixei José Estevão, comandando os Batalhões de Alcobaça, Caldas e Rio Maior, bem organizados e que sobem a 1.000 homens, e hoje mando o Conde da Taipa para Almeirim com uma bela força de 600 homens. Aqui estão 2.500 populares debaixo das ordens do Cézar de Vasconcelos.
Deus Guarde a V. Exa Quartel General em Santarém, 10 de Novembro de 1846. Illmo e Exmo Snr. Francisco de Paula Lobo d’Avila.”
17 de Novembro de 1846
“Quartel General de Santarém, 17 de Novembro de 1846.
Batalhão Nacional Móvel de Rio Maior.
Comandante, Joaquim Machado Franco.
Major, José da Costa Soares.
Ajudante, o Tenente graduado do Batalhão de caçadores nº1 servindo no nº2 da mesma Arma, José Cyrillo Machado.
Quartel Mestre, António Gil Alves.
Porta Bandeira, José Machado Feliciano.
Capitães: António Correa Mendes, Joaquim da Motta Ferreira e José Correa d’Almeida.
Tenentes: Henrique de Carvalho, João Machado Feliciano, José Henriques de Carvalho e Manoel Bernardino.
Alferes: Joaquim Machado Feliciano, António de Sá, Joaquim Ramos Franco e José Carvalho.
….”
10 de Dezembro de 1846
“Correu aqui ontem quase geral que no quartel geral do Exmo Conde das Antas houvera um movimento de suma transcendente, tendo sido destacadas de Santarém todas, ou a maior parte das forças sobre Rio Maior e retirando sobre Lisboa, acrescentavam alguns, as forças rebeldes de Saldanha.
Nem damos inteiro crédito ao boato, nem completamente o rejeitamos, com quanto ignoramos absolutamente o seu fundamento. Os últimos movimentos de tropas ao Sul podiam efectivamente ter influído para movimentos transcendentes nos dois quarteis generais. As vantagens que ultimamente temos obtido na esquerda do Tejo estando quase às portas da capital pelo lado de Almada e além disso a retirada de Leiria da coluna Lapa, perseguida pela denotada do exmo conde de Bonfim, que segundo as últimas participações devia no domingo ficar em Alcobaça.
De mais a mais o estado vulcânico em que se acha a capital, segundo todas as informações e por fim também o descrédito em que vai caindo o general das cem caras que prometendo subjugar todo o país apenas se tem podido estender até ao Cartaxo, podem efetivamente ter causado sérios e talvez decisivos acontecimentos. Anciosamente esperamos notícias que oxalá sejam conformes aos desejos dos verdadeiros patriotas.”
18 de Dezembro de 1846
“Corre como certo que o Tenente General Conde de Bonfim, se acha ocupando o ponto de Torres Vedras, sete léguas desviado de Lisboa e o valente General Conde das Antas em Rio Maior. Em breve anunciaremos a entrada destas forças na Capital.”
20 de Dezembro de 1846
“Illmo Exmo Snr. Ontem saí de Santarém depois das 10 horas por me constar a marcha das forças de Saldanha, umas na direção da Azambuja e outras na de Alcoentre e às 5 horas da tarde entrava em rio maior. Eu sabia que o Conde de Bonfim devia pernoitar em Torres Vedras e por isso esperava com razão que o inimigo marchasse na manhã de hoje na direção de Cadaval ou de Alenquer, mas vi com a maior surpresa que o não fez e só agora que são 8 horas da noite sou informado de ter empreendido a marcha às 3 horas da tarde. Acredito que o Conde de Bonfim, adiantando uma marcha do Saldanha, estará amanhã às portas da Capital. Eu vou seguir as tropas inimigas quase na mesma direção que levam, contando com uma vitória decisiva no caso de se chocarem as tropas, o que no estado atual das coisas me parece impossível evitar. Julgo pois que em poucos dias acabará esta luta fratricida, unicamente ocasionada por meia dúzia de degenerados portugueses.
Deus Guarde a V. exa Quartel General em Rio Maior 20 de Dezembro de 1848. Illmo e Exmo Snr. Francisco de Paula Lobo d’Avila, Conde das Antas.”
16 de Maio de 1847
“Pois que ontem entrou em Tomar uma guerrilha forte, segundo se afirma de mais de 200 homens! No Fundão há dias reapareceu a dispersada pelo capitão Liz de cavalaria 8, cometendo ali os maiores excessos. Em Penamacor houve movimento anárquico; em Peniche igualmente em 12 deste mês; e há dias nas Caldas, donde fugiram os principais agitadores, que de certeza se sabe, acharem-se nas serras de Rio Maior. Eu havia combinado uma batida aquela serra no dia 15, com a pouca força que está nas Caldas, e com o comandante do batalhão de Torres Novas; porem frustrou-se a combinação pela sedição em Peniche, e entrada dos guerrilhas ontem em Tomar, eu não obstante fiz marchar o major Fialho com 80 baionetas para Alcaneda, ignorando ainda a entrada dos guerrilheiros em Tomar, mas logo que esta me constou mandei ordem ao dito major para marchar logo para Torres Novas, e ali de combinação com o Lapa perseguir aqueles bandidos. O presente estado das cousas tem posto em grande desanimação os cartistas, e pelo contrário tem dado muita energia aos agitadores.
15 de Maio de 1847
“Cabe-me por esta ocasião a honra de participar a V. Exa que faltarão os correios ordinário e extraordinário que dessa capital deviam ontem chegar a esta cidade (Coimbra), constando que foram roubados nas proximidades de Rio Maior.
Deus guarde a V. Exmo  Coimbra 15 de Maio de 1847. Illmo e Exmo Sr. Ministro e secretario de estado dos negócios do reino. O governador civil interino barão de Almofallo.”
16 de Maio de 1847
“Consta que no dia 14 foram roubados quatro correios entre Alcobaça e Rio Maior.
Deus guarde a V. Snr  Quartel em Santarém 16 de Maio de I847. — Illmo Snr. J. de Pina Freire. C. C. Pedroso, coronel governador militar.”

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