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sexta-feira, 25 de abril de 2014

Rio Maior e o 25 de Abril de 1974



Este artigo é para contextualizar a situação de Rio Maior na época da revolução dos cravos.
Vou usar excertos do excelente livro “História de Rio Maior” de Fernando Duarte e edição do autor.
Fernando Duarte tenta dar uma visão objetiva dos acontecimentos, mas conforme ele mesmo admite, sem ter a necessária distanciação temporal, já que o relato é jornalístico.


“A 17 de Janeiro de 1974, iniciaram-se, em Rio Maior, as obras de construção do primeiro cinema-estúdio do Ribatejo, de que é proprietário Fernando Casimiro. O projecto, modernista, é da autoria do arquitecto Jaime Dias de Azevedo, e a direcção do engenheiro Martins Vasco.
Em Fevereiro de 1974, comemora-se o 50º aniversário da Escola Comercial Municipal de Rio Maior. Estão concluídos o pavilhão gimno-desportivo e a nova sede da Casa do Povo de Rio Maior.
A 7 de Abril, o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, visita a vila de Rio Maior.
O Almirante Américo Tomaz, Presidente da República, anuncia-se em em Fevereiro desse ano, visitará o Ribatejo: no dia 27 de Abril, Tomar; e no dia 28 de Abril, Rio Maior. Na vila, fazem-se preparativos mas a visita não se efectua pois o regime marcelista é derrubado a 25 de Abril de 1974. Nos jornais de 24, ainda se noticiam essas visitas.

O fim do Estado Novo, da ditadura de Salazar e Caetano, a 25 de Abril de 1974, é festejado em todo o concelho. Os elementos da Câmara Municipal estão demissionários mas mantêm-se até à eleição da nova Comissão Administrativa que, em Junho, toma posse no Governo Civil de Santarém. A 1 de Maio, Rio Maior manifestou exuberantemente o seu apoio ao triunfante movimento dos capitães e saúda a Junta de Salvação Nacional e o general António Spínola.
Eleita em assembleia popular, a Comissão Administrativa do Município de Rio Maior, tem a seguinte constituição: Presidente, Alberto Santos Goucha; vogais, José da Silva Pulquério, Mário Lopes Goucha, Arlindo Ferreira Santos e dr. Francisco Bergstrom Barbosa. Em Junho de 1974, esta Comissão toma posse, no Governo Civil de Santarém, no mesmo dia das de Santarém e Torres Novas. Curioso. Do acto de posse foram testemunhas, Armando Pulquério e Fernando Duarte, dois elementos do jornalismo regional.
A 24 de Julho de 1974 é impresso na tipografia de Rio Maior o nº 2.000 de Diário do Ribatejo. A 1 a 8 de Setembro, a Grande Feira realiza-se no novo clima de liberdade que se vive no país. ...
(...)
Em Dezembro comemora-se o 88º aniversário da Associação dos bombeiros Voluntários de Rio Maior e o Governador Civil desloca-se ao concelho para inaugurar a luz eléctrica em algumas das últimas povoações rurais que ainda a não possuíam.
Em Janeiro de 1975, iniciam-se, no Concelho de Rio Maior, as sessões de esclarecimento político dos vários partidos. ...
(...)
As eleições para os deputados à Assembleia Constituinte, em 25 de Abril de 1975, são, no concelho de Rio Maior, favoráveis sobretudo ao Partido Socialista e ao Partido Popular Democrático. Na vila, constituíram-se núcleos dos principais partidos. O concelho regista 13.586 eleitores.
(...)
A 13 de Julho de 1975, incidentes graves têm lugar em Rio Maior. Agricultores assaltam e destroiem, na vila, as sedes do Partido Comunista Português, na rua D. Fernando, e da Frente Socialista Popular, na rua D. Afonso Henriques. O Largo e a zona do Parque estão apinhadas de gente, irada contra os comunistas, vinda de todas as partes do concelho. Sucessivas edições de Diário do Ribatejo esgotam-se devido à objectividade da informação acerca do caso de Rio Maior. O povo diz que a Imprensa de Lisboa está manipulada pelos comunistas. Nos dias imediatos, milhares de exemplares do Diário de Lisboa e do Diário Popular, são rasgados no Largo. Forte dispositivo militar e da G.N.R. intervem. O Governador Civil desloca-se a Rio Maior. O clima é tenso e o povo não aceita a acusação de reaccionarismo. Fugitivos da prisão de Alcoentre foram capturados pela G.N.R. de Rio Maior. Na vila, gera-se uma hostilidade ao P.C.P. que se alarga a todo o país e cujos ecos chegam ao estrangeiro.
Em Agosto de 1975, Mário Soares fala num comício em Rio Maior. No mesmo mês, piquetes de vigilância interceptam, na vila, uma caravana de automóveis que, com armas, se dirigia a Leiria.
O dr. Francisco Bergstrom Barbosa demite-se da Comissão Administrativa do Município. (...)
Nos primeiros dias de Setembro, realiza-se a Grande Feira e o P.C.P. e o MDP/CDE afirmam que o ELP tem forte implantação no concelho de Rio Maior.
Um movimento de pequenos e médios agricultores, que hostiliza a reforma agrária e a ocupação selvagem de propriedades, converge para Rio maior, como centro de reivindicação. Rio Maior contesta a reforma agrária. Em Santarém após um encontro de agricultores, geram-se incidentes graves com camponeses convocados e que provoca mortes.
A 24 de Novembro de 1975 mais de 25.000 pessoas assistem em Rio Maior, a um plenário de pequenos e médios agricultores anti comunistas, reunião de significado histórico, comentada nacional e internacionalmente.
De 24 para 25 de Novembro de 1975 erguem-se barricadas em Rio Maior e durante horas é vedado o acesso a Lisboa. Uma revolução militar de esquerda saída na precipitação provocada pela tomada de posição de Rio Maior, é abafada pelas forças fiéis ao Governo do almirante Pinheiro de Azevedo.
Em Rio Maior é criada a CAP – Confederação Nacional de Agricultores.
(...)
Enquanto tudo isto se passa ainda sem proporcionar uma adequada perspectiva histórica ao estudioso, que só o tempo facultará, para um julgamento objectivo, os factos aqui ficam relatados com isenção. E uma coisa é certa – de um ponto de vista da história regional – na Câmara Municipal de Rio Maior há um notório esforço de dinamização, em situações nem sempre fáceis, mas Rio Maior caminha, confiante, no progresso do país novo e democrático criado pelo Movimento do 25 de Abril.”


2 comentários:

  1. A razão fundamental dos acontecimentos referidos ocorreram, inevitavelmente, por Rio Maior ser zona de fronteira geografica entre o sul de latifúndio (Azambuja) e o norte de minifúndio (Alcobaça, Caldas) e aqui foi o campo de batalha, protagonizada em larga maioria por pessoas exteriores ao concelho em ambos os lados da "barricada".

    Segundo Meira Burguette no livro "O Caso de Rio Maior" 1978, o espoletar ( prefiro despoletar, mas uso hoje espoletar em homenagem a Vasco G. Moura) do 1º assalto em todo o territorio nacional a uma sede do pcp, foi causada pela ingerência externa ao concelho de Rio Maior da Liga de Pequenos e Médios Agricultores de Alpiarça, afecta ao PCP, que organizou um plenário com vista ao controlo do Grémio da Lavoura de Rio Maior. Em resposta militantes do PPD convocam agricultores que acorrem do concelho de Rio Maior, mas essencial/ dos concelhos limitrofes a norte, e cercam o Gr+emio. Um grupo de manifestantes dirige-se também para as sedes do PCP e FSP saqueia e agride militantes comunistas. A imprensa controlada pelos comunistas ou com jornalistas a eles afectos, retrata a acção dos agricultores como estando a mando dos latifundiários e fachistas. No dia seguinte os agricultores indignados com a versão veiculada formam piquetes nas estradas e queimam os jornais dessa tese. Atacam outro alvo que era o Banco BPA (onde hoje é o talho Henriques) porque alguns funcionários eram acusados de serem comunistas, com a colocação de uma bomba debaixo de um carro estacionado ao lado da parede de vidro do banco, que o rebentamento destroi.

    Polismaior

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    1. Mais uma vez, o meu obrigado pela sua colaboração.

      Américo.

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