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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Epidemias em Rio Maior desde o século XVIII



Entre Setembro de 1797 e Julho de 1798 propagou-se por toda a região de Santarém a epidemia da “febre de mau caráter”.
Esta epidemia ficou atribuída aos ventos predominantes de Norte e Noroeste que traziam os ares da Vala de Asseca (nome que toma o rio Maior ao passar na zona de Santarém) e do paúl de S. António. Nessa zona havia uma prisão com condições de higiene muito más e que servia como ponto de partida para as epidemias. Existem relatos de despejos diretos para o rio Maior dos detritos de uma fábrica de peixe e carne, duma fábrica de curtumes e de outra de aguardente que em muito contribuíam para a má qualidade da água na altura.
Destas epidemias, foram propostas 6 medidas:
- Limpeza das valas, com especial referência à Vala da Asseca (rio Maior)
- Limpeza das ruas das vilas e colocar as imundices a grande distância das povoações.
- Mover o Hospital de Santarém para outro edifício, ou melhorar as condições de asseio do mesmo.
- Maior vigilância à limpeza da cadeia pública de Santarém e melhorar o ar da mesma.
- Maior controlo nos alimentos que são vendidos e punição dos mercadores que vendem alimentos impróprios aos mais pobres.
- Em Rio Maior sugere-se a construção de uma nova fonte para evitar que o povo beba água de poços.

Entre Junho e Novembro de 1811, surgiu em toda a região de Santarém e arredores uma epidemia de febre tifoide, o que levou muitas pessoas à miséria pela perda de bens e parentes.
A febre tifoide é uma doença infetocontagiosa causada pela ingestão da bactéria Salmonella em alimentos ou água contaminada.
O contágio e propagação da febre tifoide são facilitados por existência de esgotos sem tratamento, água de má qualidade e acumulação de lixos.

Desde 1853 que a cólera grassava em Portugal, principalmente no Norte de Portugal. Em Outubro de 1855 aparecem os primeiros casos em Lisboa o que levou a que as famílias abastadas fugissem para o campo.
Em Rio Maior, entre 1 e 23 de Julho de 1856, morreram 100 pessoas devido a esta peste. Existem referências a grandes focos de cólera em Rio Maior, Assentiz e Azambujeira.
A cólera é uma infeção intestinal aguda causada pela bactéria Vibrio Cholerae que produz uma enterotoxina que causa diarreia. O Vibrio Cholerae é transmitido principalmente através da ingestão de água ou de alimentos contaminados.
A contaminação de rios ocorre pelo tratamento inadequado da água e dos esgotos.

A partir de Setembro de 1857 surge uma grande epidemia de febre-amarela (só em Lisboa morreram 1932 pessoas).
A febre-amarela é uma doença infecciosa transmitida por mosquitos contaminados por um flavivírus. As águas estagnadas favorecem a propagação dos mosquitos e consequentemente a propagação da febre.

No início do século XX, para além da febre tifoide, no distrito de Santarém havia casos de sarampo, tuberculose, gripe, difteria, melitococia, varíola, carbúnculo, tosse convulsa e lepra.
A tuberculose sempre foi uma doença que muita preocupação causa nas pessoas, mesmo nos dias de hoje. Só em 1839 a doença foi batizada como tuberculose, embora já fosse conhecida desde a Grécia antiga. A tuberculose, chamada antigamente por “peste cinzenta” é uma doença infecciosa causada pela bactéria Mycobacterium Tubercilosis. No final do século XIX a morte de um dos elementos da família por tuberculose era estigmatizante, pois estava associada a um defeito hereditário, ou mesmo à pobreza, vendo-se os doentes excluídos de várias das atividades sociais.


Em Rio Maior e em pleno século XXI continuamos com vários problemas que advêm da má qualidade do nosso rio e ribeiras. Pode-se dizer que atualmente quase todas as casas têm água canalizada, mas essa água canalizada bem de furos e/ou pontos de captação em rios. Se a qualidade da água captada se continuar a deteriorar, mais elementos desinfetantes químicos têm de ser adicionados o que não traz nada de bom para a nossa saúde.
Cabe-nos a nós estarmos vigilantes e não aceitarmos como inevitável que para se gerar alguma riqueza se tenha de poluir. Na região de Rio Maior temos alguma indústria que ainda polui, nem que seja de forma sazonal o rio Maior, temos esgotos ainda não tratados a irem diretamente para o rio Maior, temos o uso por vezes exagerado de produtos químicos na agricultura que com as águas da chuva se infiltram nos terrenos e ribeiras e temos várias instalações pecuárias que continuam com impunidade a fazer descargas diretas para o rio Maior e sem qualquer tratamento. O problema não está só nas populações que vivem perto destes focos de poluição pois os poluentes ao escorrerem pelas ribeiras e rios vão para todo o lado e porque no fundo todos bebemos da mesma água. Devíamos aprender com a história e ser mais exigentes com a nossa saúde e bem-estar.

1 comentário:

  1. Principais referências bibliográficas:
    - “Jornal de Coimbra”, Vol III de 1813, página 146.
    - “Portugal Sanitário”, 1938, pág. 174.
    - “Memorias Economicas da Academia Real das Ciencias de Lisboa”, Tomo V, 1840, Página 258.
    - “Cesário Verde”, 1855-1886, página 11
    - “As Preocupações Higio-Sanitárias em Portugal (2ª metade do século XIX e princípio do XX)”, Revista da Faculdade de letras, 2006.
    - “Medicina na Beira Interior da Pré-História ao Século XXI” - vol X, pág 67
    - Site wikipédia

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